Boulos lança série de vídeos sobre ligação de Flávio Bolsonaro com empresário de bets no RJ

Ministro afirma que senador "não tem biografia, tem ficha corrida" e promete revelar novos documentos sobre negócios de aliados do candidato do PL
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Série de vídeos vai abordar contrato da Loterj, Rio Pag e relação entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz - Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Guilherme Boulos (PSOL-SP), ministro da Secretaria-Geral da Presidência, deu início nesta terça-feira (18) a uma série de publicações nas redes sociais com o objetivo de detalhar a relação entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o advogado Willer Tomaz, apontado como elo entre o candidato do PL e a RioPag, empresa que processa os pagamentos das apostas esportivas e lotéricas autorizadas pela Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj).

“Flávio Bolsonaro não tem biografia, tem ficha corrida. E hoje vou começar a abrir os arquivos e mostrar pessoas, negócios, casos suspeitos que têm ao redor dele”, afirmou Boulos no primeiro vídeo da série, publicado no YouTube e no X (antigo Twitter). O ministro afirma que a operação movimenta cerca de R$ 1,5 bilhão por ano em apostas e que a empresa teria obtido o contrato bilionário após uma licitação marcada por supostas irregularidades.

Veja o vídeo de Guilherme Boulos: arquivos de Flávio Bolsonaro

O escândalo da Loterj: contrato milionário e licitação com erro de digitação

O centro da denúncia é um contrato de R$ 32 milhões, com vigência de 60 meses, firmado entre a Loterj e a RioPag (antiga PixS Cobrança e Serviços em Tecnologia) para processar depósitos, pagamentos e saques das operações lotéricas no estado do Rio de Janeiro. 

O acordo, herdado do governo de Cláudio Castro (PL), tornou-se uma das principais dores de cabeça da gestão interina de Ricardo Couto.

O contrato está no centro de uma disputa envolvendo R$ 18,5 milhões que estavam sob custódia da empresa.

Em julho, a Justiça determinou o bloqueio de até R$ 20,9 milhões nas contas da Rio Pag. Posteriormente, os R$ 18,5 milhões foram devolvidos, mas a Loterj afirma que ainda existem valores relacionados a juros, correção e multa. A Procuradoria-Geral do Estado prepara medidas para rastrear a movimentação financeira dos recursos.

A Rio Pag contesta a cobrança adicional e afirma que os valores foram aplicados em um fundo de investimentos do Santander com prazo de carência de seis meses. A Loterj questiona a operação porque, segundo o governo estadual, esse tipo de aplicação não estava autorizado no contrato.

Licitação da Loterj também entrou no debate

A contratação da empresa ocorreu após a desclassificação da concorrente Ideia Parks. A proposta da empresa apresentava 26,00%, enquanto o edital exigia três casas decimais. A comissão considerou a diferença motivo para desclassificação, embora o percentual fosse equivalente ao exigido.

Com a saída da concorrente, a então Pixs Cobranças e Serviços em Tecnologia, posteriormente denominada Rio Pag, assumiu o contrato. O episódio passou a ser citado por Boulos como parte dos questionamentos sobre a operação das apostas no estado.

Quem é Willer Tomaz, o advogado amigo de Flávio Bolsonaro

Willer Tomaz é o advogado que, segundo Boulos, atua como representante da RioPag e é apontado como amigo próximo do senador Flávio Bolsonaro. Ele admite representar a companhia, mas nega ter qualquer relação societária ou de gestão com a empresa.

Procurado para explicar o “sumiço” dos R$ 18,5 milhões, Tomaz declarou ao portal Metrópoles que o dinheiro custodiado pela RioPag teria sido aplicado em um fundo de investimentos do Banco Santander que previa uma “trava” de seis meses para os saques — o que justificaria a demora na restituição. A versão, no entanto, causou estranheza na Loterj, já que esse tipo de aplicação não está previsto nem autorizado pelo contrato com a RioPag nem pelo ofício que determinou a custódia dos valores.

Questionado sobre qual fundo do Santander teria recebido o montante, Willer Tomaz afirmou, por meio de nota, que “dados sobre aplicações financeiras, contas bancárias e clientes são protegidos por sigilo legal e não serão divulgados”.

A ligação com Flávio Bolsonaro e a licitação questionada

O episódio citado por Boulos remonta a uma licitação iniciada pela Loterj no fim de 2022 para escolher a empresa responsável pelo processamento dos pagamentos das apostas e dos prêmios. Duas empresas chegaram à disputa: a Idea Maker, que apresentou proposta de repassar 26% de sua remuneração à Loterj, e a PixS (atual RioPag), que ofereceu 20%.

O que chama a atenção, segundo Boulos, é o critério que eliminou a concorrente: a Idea Maker teria sido desclassificada por um suposto erro de digitação — a inclusão de um zero depois da vírgula em um dos documentos. Com a desclassificação, a PixS sagrou-se vencedora do certame, garantindo o contrato de R$ 32 milhões.

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Cláudio Castro é investigado por desviar R$ 3 bilhões de empresa de previdência para Banco Master. Na foto, Flávio Bolsonaro e Castro aparecem em evento do PL – Reprodução Redes Sociais

“Quando você começar a investigar como essa empresa conseguiu esse negócio, sabe o que vai aparecer? Um amigo pessoal do Flávio Bolsonaro”, disse Boulos no vídeo, antes de apresentar Willer Tomaz. A Loterj afirma que a licitação seguiu o edital e foi validada pelo Tribunal de Justiça e pelo Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro.

A série de vídeos prometida por Boulos deve trazer novos documentos e revelações sobre outros negócios envolvendo aliados do senador. O ministro afirmou que continuará “abrindo os arquivos” de Flávio Bolsonaro ao longo dos próximos dias.

A investigação sobre a empresa e a atuação de Willer Tomaz ocorre em meio ao debate político sobre a expansão das bets e sobre o modelo adotado pela Loterj para credenciamento e processamento dos pagamentos no estado

Segundo apuração da Revista Fórum, que já denunciou o caso anteriomente, “isso não significa que Flávio Bolsonaro seja sócio da RioPag ou tenha participado da licitação da Loterj. A acusação apresentada por Boulos é de que um amigo próximo do senador integra a estrutura empresarial beneficiada pelo contrato e mantém relações profissionais com personagens envolvidos no processo”.

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