Um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) utilizou inteligência artificial para analisar 80.148 notificações de violência contra mulheres registradas na capital paulista entre 2013 e 2023. Os resultados mostram que a violência física foi a mais predominante no período,mas a violência sexual foi a que apresentou maior tendência de crescimento. Mais informações em TVT News.
A pesquisa combinou recursos de IA com análises estatísticas, temporais e geoespaciais para identificar o perfil das vítimas e dos agressores, acompanhar a evolução das notificações e localizar as regiões da cidade com maior concentração de registros.

Mulheres de 20 a 39 anos são as mais afetadas, com 71,4% das notificações. A violência física apareceu em 79,8% dos casos analisados, e o uso da força corporal foi apontado como meio de agressão em 73,8% dos registros.
Os homens foram os maiores agressores em 72,6% das notificações. Em grande parte dos casos, os agressores tinham relação próxima com as vítimas: os cônjuges representavam 30,2% dos registros, enquanto os ex-cônjuges correspondiam a 13,3%.
Somadas, essas duas categorias respondiam por 43,5% das notificações. Agressores desconhecidos foram apontados em 14,8% dos casos.
Violência sexual teve crescimento mais acentuado
Embora identificada em menos de 10% das notificações, a violência sexual foi a modalidade com maior tendência de crescimento durante a série histórica.
A metodologia utilizada pelos pesquisadores possibilitou projetar a continuidade do aumento das notificações de violência física, psicológica e sexual nos 24 meses posteriores ao período analisado.
O estudo, no entanto, não informa os números anuais nem os valores para cada modalidade. Dessa forma, é possível identificar a direção da tendência, mas não dimensionar a intensidade desse crescimento.
Também é necessário distinguir o aumento das notificações do crescimento efetivo da violência. Uma elevação dos registros pode estar relacionada tanto ao aumento das notificações, quanto ao avanço dos serviços de apoio às vítimas.
Gestantes estão mais expostas à violência sexual
Um dos resultados que mais chamam atenção no levantamento é a prevalência de violência sexual entre gestantes, que foi 2,47 vezes maior do que entre as mulheres que não estavam grávidas.

A pesquisa também identificou uma associação entre a violência e o consumo de álcool pelo agressor. Nas notificações em que havia registro dessa condição, a prevalência de violência sexual foi 32% maior, enquanto a de violência física sem que o agressor estivesse embriagado aumentou 17%.
Mulheres negras são maioria das vítimas
As mulheres pardas representaram 40,5% das notificações, seguidas pelas brancas, com 40,2%, e pelas pretas, com 12,4%. Consideradas em conjunto, mulheres pretas e pardas correspondiam a 52,9% dos registros analisados.
O resultado reforça a situação de vulnerabilidade que mulheres negras vivem, motivadas, principalmente, por desigualdades no acesso aos serviços de saúde e diferenças no acolhimento das denúncias.

A análise geoespacial identificou concentrações de notificações nas zonas sul, leste e central da cidade de São Paulo. O mapeamento pode contribuir para a distribuição de serviços de atendimento, vigilância e prevenção à violência.
O documento não detalha, entretanto, quais distritos ou bairros apresentaram as maiores concentrações. Também não esclarece se a localização corresponde ao endereço da ocorrência, à residência da vítima ou ao serviço de saúde responsável pela notificação.
Inteligência artificial pode auxiliar políticas públicas?
Além de analisar os registros, o estudo apresentou uma metodologia denominada Health Research Standard Process for Artificial Intelligence (HRSP-AI).
O modelo organiza as etapas de aplicação da inteligência artificial em pesquisas na área da saúde e busca aumentar a consistência, transparência e a possibilidade de reprodução das análises.
Segundo o estudo, a metodologia pode ser aplicada a outras bases de dados e problemas de saúde pública. No caso da violência contra as mulheres, a tecnologia permitiu localizar padrões em mais de 80 mil notificações, acompanhar a evolução dos registros, identificar concentrações territoriais e projetar tendências.
Subnotificação ainda é desafio para obter resultados concretos
Os dados analisados foram extraídos do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), abastecido a partir dos casos comunicados aos serviços de saúde.
Isso significa que os números não representam a totalidade da violência sofrida pelas mulheres na cidade. Muitos episódios não chegam ao conhecimento das autoridades ou dos serviços públicos.
Uma mesma vítima também pode ter sofrido mais de uma forma de violência, conforde definido na lei Maria da Penha. Por isso, os percentuais referentes às diferentes modalidades não devem ser interpretados, necessariamente, como casos isolados.
Ainda assim, as projeções elaboradas pelo estudo ajudam a identificar grupos mais vulneráveis e áreas que demandam maior atenção do poder público, além de reforçar a necessidade de ampliar as políticas de prevenção, acolhimento e proteção às mulheres que, apesar dos avanços recentes, ainda ficam muito abaixo do esperado.
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