O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avalia que existe uma articulação política entre o presidente da Argentina, Javier Milei, e o governo de Donald Trump para tentar influenciar o cenário eleitoral brasileiro em favor do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Leia em TVT News.
No último sábado (25), Milei esteve presente na convenção nacional do PL, em São Paulo, evento em que o argentino fez ataques diretos a Lula e ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes.
Nos bastidores do Palácio do Planalto, integrantes do governo consideram que a presença de Milei no ato ultrapassou os limites da relação entre chefes de Estado e representou uma tentativa de interferência na política interna brasileira.
Segundo auxiliares de Lula, a movimentação estaria alinhada ao endurecimento da postura dos Estados Unidos contra o Brasil nas últimas semanas, marcado pela imposição de novas tarifas sobre produtos brasileiros e por críticas públicas de integrantes da administração Trump.
A avaliação do governo brasileiro é de que a aproximação entre Milei e Trump busca fortalecer o campo conservador na América do Sul, tendo como objetivo impulsionar a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República. Fontes do Executivo afirmam que o presidente argentino atua em sintonia com Washington e teria assumido um papel político na estratégia internacional da direita.
Ataques durante convenção do PL
Durante o evento em São Paulo, Javier Milei voltou a atacar Lula, chamando o presidente brasileiro de “presidiário”. Também dirigiu ofensas ao ministro Alexandre de Moraes, a quem se referiu de forma depreciativa após a decisão que impediu um encontro entre o argentino e o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar.
As declarações provocaram forte reação do governo brasileiro. Apesar disso, a orientação de Lula é não responder diretamente às provocações.
Na segunda-feira (27), ao ser questionado por jornalistas sobre as falas de Milei, o presidente limitou-se a responder com ironia:
“Quem é esse cara?”
Segundo interlocutores do Planalto, a estratégia é evitar ampliar a repercussão política das declarações do presidente argentino.
A mesma postura foi adotada recentemente em relação às críticas feitas pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que responsabilizou Lula pela falta de avanços nas negociações comerciais entre Brasil e Estados Unidos.
Na ocasião, Rubio afirmou que o presidente brasileiro teria colocado o “próprio ego” acima de um entendimento comercial. A resposta oficial foi conduzida pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, preservando Lula do confronto direto.
Itamaraty reage e tensão diplomática aumenta

Embora o presidente tenha optado pelo silêncio, a resposta institucional do governo brasileiro foi imediata.
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, convocou o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, para prestar esclarecimentos sobre as declarações de Milei. Paralelamente, o Itamaraty chamou de volta para consultas o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli.
O gesto diplomático é considerado um dos instrumentos mais duros utilizados antes da adoção de medidas mais severas entre dois países e evidencia o agravamento das relações bilaterais.
Após retornar a Brasília, Bitelli reuniu-se com Mauro Vieira para discutir os desdobramentos da crise. O diplomata também conversou brevemente com Lula durante a recepção oficial ao presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-myung, no Palácio do Itamaraty.
Relação entre Brasil e Argentina vive momento de maior desgaste
As relações entre Brasil e Argentina atravessam um dos períodos mais delicados desde a posse de Javier Milei, no fim de 2023.
Desde o início de seu mandato, o presidente argentino direciona críticas frequentes ao governo brasileiro e ao próprio Lula. Em diversas ocasiões, Milei classificou o presidente brasileiro como integrante da esquerda latino-americana e passou a estreitar sua relação política com Jair Bolsonaro e aliados do PL.
Lula, por sua vez, tem evitado confrontos pessoais. Mesmo diante dos sucessivos ataques, o presidente brasileiro manteve a interlocução institucional por meio do Itamaraty e dos canais diplomáticos.

A tensão aumentou ainda mais após a participação de Milei em um evento de caráter partidário no Brasil. Integrantes do governo avaliam que a presença do argentino rompeu um princípio tradicional das relações internacionais, segundo o qual chefes de Estado evitam envolvimento direto em disputas eleitorais de outros países.
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Tarifaço dos EUA amplia percepção de coordenação
A leitura do Planalto também considera o contexto da disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos.
Nas últimas semanas, o governo Trump anunciou novas tarifas de 25% sobre produtos brasileiros e, posteriormente, acrescentou uma sobretaxa de 12,5% para determinados setores. As medidas foram justificadas pela Casa Branca com base em investigações comerciais conduzidas pelos Estados Unidos.
Para integrantes do governo brasileiro, a coincidência entre a escalada das pressões comerciais e a atuação política de Milei fortalece a percepção de uma estratégia coordenada de desgaste internacional do governo Lula.
A avaliação interna é de que tanto as medidas econômicas quanto as manifestações públicas de aliados de Trump procuram influenciar o ambiente político brasileiro às vésperas das eleições presidenciais.
Ainda assim, a orientação do Planalto permanece a mesma: responder institucionalmente às ações consideradas ofensivas, preservando Lula do embate direto com líderes estrangeiros.
Enquanto o Itamaraty conduz as reações diplomáticas e comerciais, o presidente segue priorizando agendas internacionais voltadas à ampliação de parcerias econômicas e ao fortalecimento da atuação brasileira em fóruns multilaterais.