Fábio Faria, ex-ministro de Bolsonaro, intermediou negócios e articulações de Daniel Vorcaro

mensagens-obtidas-pela-pf-mostram-como-faria-virou-o-principal-elo-do-banqueiro-do-master-com-autoridades-de-brasilia-foto-fabio-rodrigues-pozzebom-agencia-brasil
Mensagens obtidas pela PF mostram como Faria virou o principal elo do banqueiro do Master com autoridades de Brasília. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Uma apuração da revista piauí baseada em mensagens obtidas pela Polícia Federal mostrou nesta semana como Fábio Faria, ex-deputado federal pelo Rio Grande do Norte por quatro mandatos, e ex-ministro das Comunicações no governo de Jair Bolsonaro se tornou um dos principais elos entre o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master e autoridades dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Saiba mais na TVT News.

Faria também é genro do apresentador Silvio Santos, morto em 2024, e atualmente comanda a estruturação do canal SBT News.

A reportagem aponta que Faria e Vorcaro se conheceram em outubro de 2023, cerca de um ano após deixar o governo, quando Faria participou em Paris de um evento do Esfera Brasil, instituto do lobista João Camargo.

Menos de duas semanas depois, segundo mensagens de WhatsApp obtidas pela PF e reveladas pelo site Fatos Online, ele já articulava um encontro entre o banqueiro e autoridades de Brasília, citando o ministro do STF Dias Toffoli, o então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, e Davi Alcolumbre. Pacheco nega ter participado de reunião com Vorcaro.

Faria vendeu projeto eólico por R$ 67,5 milhões

Em fevereiro de 2024, o ex-ministro vendeu a Vorcaro um projeto de energia eólica de 240 MW, a Fazenda São Pedro, em Galinhos (RN), por R$ 67,5 milhões, ficando com 10% de participação.

Especialistas do setor ouvidos pela piauí sob reserva, estimam que o empreendimento, ainda em estágio inicial de desenvolvimento, valeria cerca de R$ 13 milhões. Faria atribuiu o preço a um estudo da KPMG, mas a consultoria informou que apenas participou de discussões teóricas sobre o setor, sem realizar avaliação formal do projeto.

Antes de fechar com Vorcaro, Faria ofereceu o ativo a outros investidores, como Carlos Sanchez (EMS), Emival Caiado Filho, André Esteves (BTG Pactual) e os irmãos Batista (JBS), que recusaram a compra.

O pagamento incluiu recursos da Super Empreendimentos e Participações, empresa que a PF associa a contratos considerados fictícios usados por Vorcaro, e um apartamento de 800 m² no Jardim América (SP), repassado a Faria por R$ 50 milhões e revendido semanas depois a João Camargo por R$ 54 milhões. O restante, R$ 17,5 milhões, foi pago diretamente. Metade do total ficou com Faria; a outra metade foi dividida entre seu pai e seu tio, donos originais do terreno. Em 2018, o patrimônio declarado de Faria era de R$ 6,5 milhões.

Faria fez viagens custeadas pelo banqueiro

Documentos e mensagens obtidos pela PF registram a presença de Faria em viagens organizadas por Vorcaro: em abril de 2024, ao fórum Brasil de Ideias, em Londres, financiado pelo Banco Master; em maio do mesmo ano, à Brazilian Week, em Nova York, a bordo de jato particular do banqueiro, com hospedagem paga por ele.

Em junho de 2024, durante evento em Lisboa promovido pelo ministro Gilmar Mendes, Faria negou à piauí ter estado na cidade; listas de passageiros, mensagens e o relato de uma testemunha, no entanto, indicam que ele participou de um almoço com Vorcaro e o senador Ciro Nogueira na ocasião.

Fontes ouvidas pela revista também afirmam que ele apresentou Vorcaro ao ministro do STF Alexandre de Moraes, que não conhecia o banqueiro antes do encontro em Paris. Em janeiro de 2024, Vorcaro contratou a advogada Viviane Barci, mulher de Moraes, por R$ 129 milhões.

Mensagens obtidas pela PF também mostram Faria atuando como interlocutor informal de Vorcaro junto à imprensa e a políticos do Centrão. O nome de Faria aparece em pelo menos três frentes de investigação da Polícia Federal relacionadas a Vorcaro: no caso das ligações do banqueiro com o ministro Toffoli, na apuração sobre o senador Ciro Nogueira e na representação envolvendo o senador Jaques Wagner.

Segundo um agente federal ouvido pela reportagem, ocorre atualmente uma apuração sobre Faria ter ou não auxiliado Vorcaro na corrupção de agentes públicos.

Trajetória profissional de Faria após o governo inclui BTG Pactual e SBT News

Ao deixar o Ministério das Comunicações, Faria foi contratado pelo banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, ao lado do ex-advogado-geral da União Bruno Bianco. Após a venda do projeto eólico a Vorcaro, os dois deixaram o BTG e formaram a consultoria F2B2, dedicada à compra e venda de precatórios e outros ativos — negócio em que, segundo fontes do mercado, o Master pagava comissões superiores às praticadas pelo BTG. Faria também atuou como consultor da Starlink no Brasil, tentou sem sucesso criar uma distribuidora de internet via satélite e constituiu uma empresa de aviação executiva.

Em dezembro de 2025, Faria participou da estruturação do canal SBT News e da captação de patrocinadores, entre eles o grupo J&F, de Joesley Batista. O senador Flávio Bolsonaro chegou a ser convidado para a inauguração do canal, mas foi desconvidado após sinalização de que o presidente Lula não compareceria ao evento caso ele estivesse presente.

Em junho de 2026, Flávio visitou os estúdios do SBT e concedeu entrevista ao vivo ao programa Central de Notícias, na qual foi questionado sobre o escândalo do filme Dark Horse, financiado por Vorcaro. A entrevista, que gerou reclamações da equipe do senador, durou 21 minutos e não teve reaproveitamento posterior na programação do canal.

Apesar de Faria negar patrocínio do Banco Master ao SBT, documentos mostram que o Credcesta, produto do banco, patrocinou o quadro Túnel dos Sonhos, do Programa do Ratinho, ao longo de 2024 e parte de 2025.

Vorcaro está preso desde a deflagração de investigações sobre o Banco Master. Faria não responde a diversos questionamentos da reportagem sobre os episódios relatados.

Assuntos Relacionados