A Controladoria-Geral da União (CGU) abriu uma investigação sobre a execução de uma emenda parlamentar de R$ 4 milhões destinada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) ao Vasco da Gama em 2025. As informações são do jornalista Juca Kfouri, colunista do UOL e apresentador do programa Juca Kfouri Entrevista, na TVT News.
A apuração preliminar da CGU aponta seis pontos críticos na prestação de contas do projeto no clube carioca, com suspeitas de irregularidades que vão desde a concentração de pagamentos em um único fornecedor até a velocidade incomum dos desembolsos.
O principal ponto de atenção da investigação é a concentração extrema dos recursos: 93% de todo o valor já gasto foi direcionado a uma única pessoa física, Luiz Armando Marcondes de Oliveira, que emitiu notas fiscais para o fornecimento de 31 categorias diferentes de material esportivo manufaturado. A atividade, segundo a CGU, é tipicamente exercida por empresas do ramo têxtil ou esportivo, e não por um CPF avulso.
Outro fator que chamou a atenção dos auditores foi a velocidade incomum dos pagamentos. As três notas fiscais emitidas por esse fornecedor, que somam R$ 684.750,10, foram pagas entre 20 de março e 11 de maio de 2026 — praticamente esgotando de uma só vez o orçamento de uniformes previsto para toda a vigência do projeto, que vai até maio de 2027.
Quais as suspeitas sobre a emenda de Flávio Bolsonaro para o Vasco da Gama
CGU investiga emenda de R$ 4 mi de Flávio Bolsonaro ao Vasco. Suspeitas incluem concentração em fornecedor único e velocidade incomum de pagamentos
A lista de inconsistências inclui ainda:
- Inconsistência contratual: duas vagas descritas como “Contratação via CLT” aparecem com a empresa “Spiridon Promoções e Eventos Ltda” como fornecedora, sugerindo possível intermediação não condizente com a modalidade declarada.
- Nome societário incompatível: a empresa “MR Eventos Treinamento e Agenciamento Empresarial Ltda” presta serviço de “Gerente Administrativo” de um projeto social esportivo — o nome sugere atuação em agenciamento de eventos e artistas, não em gestão administrativa de projetos sociais.
- Prazo de prestação de contas distante: o prazo final (25/07/2027) é superior a um ano a partir dos dados mais recentes, o que limita a fiscalização pública detalhada no curto prazo.
- Saldo elevado não utilizado: R$ 3,3 milhões (85% do repasse) permanecem em conta, ampliando a janela de tempo para novos desembolsos.
A investigação da CGU ocorre em um contexto mais amplo de apurações sobre as emendas do parlamentar. A Polícia Federal mantém aberta uma investigação sobre outro repasse de Flávio Bolsonaro, no valor de R$ 199 mil, destinado em 2023 ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop). A entidade é suspeita de manter ligações com o esquema atribuído aos irmãos Brazão — o deputado federal Chiquinho Brazão e o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, Domingos Brazão. Ambos estão presos pela morte de Marielle Franco.
De acordo com a apuração de Juca Kfouri, “nos corredores de São Januário, o que se comenta é que o advogado Alan Belaciano — presidente da Assembleia Geral do Vasco, braço direito do senador Flávio Bolsonaro e com forte influência sobre o presidente do clube, Pedrinho — seria o articulador das ações”, afirma o jornalista.
Suspeitas que Flávio Bolsonaro ainda não explicou
A nova frente de apuração reacende o histórico de controvérsias que cercam o uso de recursos públicos e a atuação do senador.
Além do caso envolvendo o Vasco e as conexões com os Brazão, o senador também está no radar das autoridades por outras movimentações financeiras, incluindo a emissão de R$ 1,5 milhão em notas fiscais por seu escritório de advocacia para empresas vinculadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, investigado no escândalo do Banco Master, e negociações para a captação de recursos para o filme Dark Horse, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Dark Horse: relembre o envolvimento de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro
O escândalo em torno do filme Dark Horse, uma cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, ganhou novos contornos em 2026. A investigação teve início após a divulgação, pelo Intercept Brasil, de um áudio no qual o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) negociava diretamente com o então controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, um repasse de aproximadamente 24 mihões de dólares para bancar a produção. Documentos revelaram que, até maio de 2025, cerca de 10 milhões de doláres já haviam sido pagos em seis operações.
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Diante das suspeitas sobre o destino desses recursos, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a abertura de um inquérito da Polícia Federal para apurar o financiamento do longa. A PF investiga se parte do dinheiro, que teria sido enviado para um fundo no Texas (EUA), foi desviado para finalidades diversas da produção, como o custeio de despesas do deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos.
A apuração também levou a PF a avaliar a possibilidade de pedir a inclusão de Flávio Bolsonaro na chamada “difusão prateada” da Interpol, um mecanismo para auxiliar na localização internacional de bens e ativos, com o objetivo de rastrear os milhões enviados ao exterior. Enquanto isso, uma perícia anexada ao processo revelou que o custo declarado da produção foi de pouco mais de R$ 75 milhões, um valor inferior ao inicialmente negociado entre o senador e o banqueiro.
