O plano de governo de Flávio Bolsonaro e suas falas na imprensa apontam na direção de cortes no orçamento, flexibilização das relações de trabalho e privatização de serviços públicos.
A agenda é muito parecida com a de países vizinhos. Atualmente, 13 dos países da América Latina estão à direita e extrema-direta e os líderes assumiram agendas muito parecidas com as propostas do candidato brasileiro da extrema-direita.
A cientista política e analista internacional, Ana Maria Prestes, explica que esses governos de extrema-direita estão alinhados com a Casa Branca, e tem voltado às suas políticas para cumprir determinações de Donald Trump. Mas como está a economia dos países vizinhos que adotaram agendas parecidas com as propostas de Flávio Bolsonaro? Saiba mais em TVT News.
Argentina
A argentina se direcionou à direita, primeiro elegendo Maurício Macri e, depois, com Javier Milei, que chegou a participar do lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência e fez críticas à Lula.
Ana Prestes destaca que, na Argentina, o país estava sob uma inflação gigantesca e uma crise cambial forte, além de uma dívida com o FMI (Fundo Monetário Internacional), quando Javier Milei implementou os cortes brutais em programas sociais que atingiram em cheio a população.
“Tem dados bem recentes de aumento da pobreza, aproximadamente, mais de dois milhões de novos pobres só nos últimos seis meses. Então, já se tem 7,5% da população na indigência. As filas para emprego estão enormes e as pessoas perderam capacidade de compra”, avaliou.

Ela explica que, na Argentina, eles medem o bem-estar da população pela quantidade de carne vermelha e que esse consumo tem caído drasticamente. De acordo com a CICCRA (Câmara da Indústria e Comércio de Carnes e Derivados da Argentina), só entre entre julho de 2025 e julho de 2026, o consumo de carne vermelha caiu quase 10%. Além disso, números do Indec (Instituto Nacional de Estatísticas e Censos) mostram que a pobreza no primeiro semestre de 2026 foi para mais de 30%.
“O FMI foi motivo de chantagem do Trump, na época da eleição parlamentar deles. O Trump condicionou empréstimos, repasse de recursos, a partir do resultado eleitoral, só no ano passado eles pegaram mais de 20 bilhões, mais do que eles já estavam devendo para o o FMI. É uma situação muito dramática a da Argentina, E quem está pagando em cheio mesmo, é a população. Então, aumentou a pobreza, o desemprego, diminuiu muito a o nível da dignidade, das pessoas”, disse Ana.

Dados da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) de 2024, já mostravam que, 66% das crianças menores de 14 anos, na Argentina, são pobres e, que todos os dias um milhão de meninos e meninas dormem sem jantar no país.
Chile
Em 2025, o Chile elegeu José Antonio Kast dando uma guinada à direita. A cientista política enxerga o Chile, como um país que teve uma longa experiência de neoliberalismo, pausada apenas por uma breve experiência com a esquerda na eleição de Gabriel Boric, em 2021.
“O governo do Boric, foi um governo mais à esquerda fruto de um estalido social por uma mudança constitucional. O Chile é um país, em que, a maioria dos serviços públicos já estavam privatizados, a própria constituição pinochetista, já tinha embutido nela, uma política neoliberal. Então, o governo Boric não conseguiu enfrentar essas questões, tivemos a constituição que foi derrotada”.

Em contrapartida, com a eleição de Kast, informaçõs da teleSUR, com base em reportagem do jornal mexicano La Jornada e em dados do Instituto Nacional de Estatísticas (INE) mostram que o desemprego já atingiu 9,6% no trimestre de junho a agosto de 2026.
“O desemprego feminino aumentou entre mulheres jovens. O desemprego feminino, é de 10,5% e passa de 25% entre as mulheres jovens. Esse é um dado que chama bastante atenção, porque esses estados que são governados pela extrema direita, rapidamente, sofrem com a questão do desemprego”, opinou a cientista política.
Ainda, segundo ela, por Kast pertencer a um grupo de ultraempresários, existe uma agenda voltada aos benefícios empresariais com flexibilização de regras trabalhistas e precarização do mercado de trabalho. O resultado foi uma queda da perspectiva de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) com uma inflação relativamente controlada, mas acima da meta. “Agora, em agosto, a inflação, está em 4,1% e eles tinham uma meta de 3%, esse é o quadro, nestes países que tem uma agenda de governo e econômica muito semelhante ao que está sendo apregoado pelo candidato Flávio Bolsonaro e a equipe econômica dele”, criticou a analista.
Colômbia
Em junho deste ano, o então presidente de esquerda, Gustavo Petro, perdeu as eleições para o ultradireitista Abelardo de la Espriella.
“Ele [Espriella] já deu muitos sinais de ataque, por exemplo, à educação pública e na área social. Outro dia, eu estive em um evento no México, que o Gustavo Petro, ex-presidente da Colômbia, estava apresentando umas tabelas. E ele apresentou uma tabela que todo mundo ficou espantado de como em apenas um mês de governo do Espriella aumentou o desemprego.”
De acordo com a Trending Economics a taxa de desemprego da Colômbia subiu para 9,4% em agosto de 2026, em comparação a julho que estava em 8,1%.

Ana Prestes também explica que os colombianos estão com medo do salário mínimo não aumentar. “Gustavo Petro deu aumento real no salário mínimo, que foi 7%. Está todo mundo lá com medo de que isso não seja garantido. Há um risco de perda salarial importante. A Colômbia tem uma inflação de quase 6,5%, eles têm juros elevados, na casa dos 12%”.
Ela relata que o discurso de Espriella também é o da diminuição do estado, dos cargos públicos, privatização da educação e saúde .
“Durante o governo de Petro, ele conseguiu aprovar pelo menos duas reformas importantes, a da saúde e a do trabalho. Eles conseguiram ter uma renovação na legislação trabalhista e conseguiram também aumentar o salário mínimo. Tem todos esses riscos de perder os ganhos que foram obtidos com o governo Petro”, pontuou.
Bolívia
A Bolívia teve eleições em 2025, com o governo progressista do presidente Luis Arce em crise, ele mesmo rompido com o ex-presidente Evo Morales e o partido governista, o MAS (Movimento ao Socialismo), rachado.
O resultado foi uma candidatura paralela de Evo, indeferida pela Justiça Eleitoral, que se converteu em campanha pelo voto nulo e mais dois rachas: a candidatura oficialista de Eduardo del Castillo, pelo MAS, e a do senador e ex-membro do MAS Andrónico Rodríguez como independente. Nesse cenário, o segundo turno foi disputado pela extrema direita, com Jorge Quiroga, e a centro-direita Rodrigo Paz, que herdou boa parte dos votos históricos da esquerda e venceu o pleito.
Paz é filho do ex-presidente Jaime Paz e sobrinho-neto do também ex-presidente Victor Paz Estenssoro, este último presidente boliviano por quatro ocasiões no século 20 — e inicialmente ligado ao nacionalismo progressista.
Ao assumir o poder, Rodrigo Paz desfez compromissos de campanha e lançou mão de um programa de cortes de investimento público e aumento dos combustíveis, o que levou à ruptura com seu vice Edmand Lara e gerou grandes manifestações iniciadas em maio deste ano, seis meses depois de sua posse. A crise permanece em curso com Paz altamente rejeitado.
Ana Prestes destaca que a Bolívia com os govenos de esqueda já foi o país que mais cresceu na América do Sul. “Tinha uma taxa de crescimento de 4,5% estável, na época do Evo e, também, com garantia de não privatização dos recursos naturais, principalmente o lítio”, disse.
Ela lembra que o presidente Rodrigo Paz fez um ajuste econômico apoiado pelo FMI e, agora, o país tem uma projeção negativa do PIB para este ano, de menos 3%.
“Eles contrataram empréstimos com o FMI, tem uma inflação também na casa dos 6% […] têm uma crise também do gás e da produção dos hidrocarbonetos, porque eles não conseguiram repor equipamentos, então eles têm uma crise de deterioração muito parecido com o que aconteceu durante o longo período que a Venezuela estava sancionada, de deterioração da capacidade de funcionamento de refinarias, equipamentos e indústria necessária para a produção do combustível, seja ele gás, diesel, gasolina”.
Outro ponto, é um problema em relação a soberania alimentar. “Entre agosto e setembro de 2026, por exemplo, a cenoura aumentou, 219%”, pontuou Ana.
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